sábado, 12 de dezembro de 2015

CIDADE MARAVILHOSA ESVAZIADA POR JK E PELA DITADURA

Gente, confesso que tenho um amor à primeira vista pela cidade do Rio de Janeiro desde que a vi pela primeira vez, entrando de navio na Baía da Guanabara (num tempo em que ainda se viajava de navio, de trem, de bonde por aqui; hoje, trem e ônibus só na atrasada Europa...) a caminho do Rio Grande, onde estudaria filosofia com os jesuítas em São Leopoldo. Naquele tempo eu estudava para ser padre. Não ia dar certo. Alguns meses depois, consolidei esse amor passando férias ali, em dezembro de 1950 e janeiro de 1951, na casa de uma tia chamada Gracinha, que morava no Largo do Machado, esquina com Bento Lisboa. Ela mandou uma passagem para Mamãe, que veio do Recife, e outra pra mim. Getúlio, constitucionalmente reeleito, tomou posse em janeiro para um mandato que não terminaria, forçado que foi a suicidar-se para não enfrentar a desonra de um golpe (que conseguiu retardar por dez anos com sua carta-testamento). Eu ia muito à sede da Ação Católica, na Rua México, para ouvir conferências de Alceu Amoroso Lima, Dom Helder (que era bispo auxiliar do Rio) e outros líderes do catolicismo brasileiro. Na noite de Natal, fui assistir à Missa do Galo no Mosteiro de São Bento, pegando um bonde um pouco antes da meia-noite e saltando na Praça Mauá. Tudo tranquilo (a volta pra casa também), sem balas perdidas, arrastões nem o domínio do tráfico de entorpecentes. Rio saudoso.
Muito mais tarde, nos anos 1970, morei lá alguns anos, trabalhando no grupo da Manchete, na Rio Gráfica, hoje Editora Globo, no Diário de Notícias e no alternativo Opinião. Foi um tempo muito bom para mim, apesar do auge da ditadura (com as polícias ainda desconectadas, em São Paulo e no Rio minha pecaminosa vida pregressa era ignorada). Eu morava na Praia do Flamengo, onde descobri um apartamento havia muito desocupado e que estava barato, com vista para o Pão de Açúcar, Niterói do outro lado da baía. Meus meninos, menos Paulo (Marquinhos não havia nascido), ainda muito novo, estudavam em escola pública, de excelente qualidade, Escola Rodrigues Alves, vizinha ao Palácio do Catete, Depois Carlinhos passou para a Anne Frank, vizinha ao Palácio Guanabara. O hino do Estado da Guanabara era o velho e bonito "Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil".
Mas o que eu quero dizer mesmo é que o Rio de Janeiro foi duplamente esvaziado e apequenado. Primeiro, por JK, que cismou de construir Brasília, sem justificativa séria, somente a possibilidade das negociatas de sempre (o desenvolvimento do Centro-Oeste não se deve só à mudança da capital). Destruiu a Previdência Social e muito mais. Para desafogar o Centro do Rio, bastava instalar o governo federal na Barra da Tijuca, despovoada na época, onde caberia muito bem o núcleo dos projetos de Lúcio Costa e Niemeyer: Praça dos Três Poderes e Esplanada dos Ministérios. Nada das cidades-satélites faveladas, das infindáveis mordomias que JK inventou para convencer deputados e senadores a se mudarem para Brasília.  Nem das constantes vantagens que eles próprios criam o tempo todo.
Pelo menos, o Rio tornou-se uma Cidade-Estado. Mas tinha uma pedra (uma ditadura) no meio do caminho. E o general-ditador Ernesto Geisel decidiu juntar o Estado da Guanabara com o atrasado e despolitizado Estado do Rio. Aí foi o esvaziamento maior. E vieram os “Garotinhos”, “Garotinhas”, “Pezões”, trazendo para o politicamente conscientizado Rio-Guanabara a incultura política da velha província fluminense. Como o tema se alonga, volto a ele na próxima postagem.

Nenhum comentário: